Como se a música que eu gosto não fosse suficientemente má, ainda tinha que escrever sobre isso.

Inspirado no filme Noite de Festa de Nuno Costa Santos (Os outros autores)

  1. Introdução
  2. O meu pai
  3. O Carlos
  4. O Hélder
  5. O Nuno
  6. A Sheila

1. Introdução

Vi no outro dia o filme do Nuno Costa Santos, Noite de Festa.

É um documentário. Normalmente documentário é o nome que se dá a um filme que é mais interessante que a média dos que são feitos para aí, mas que não teve cheta para ser produzido.

Percebo bastante disso, pois a minha vida é ter ideias para as quais ninguém tem dinheiro para produzir.

Mas ficar indiferente a um tipo, que a chegar aos 40, regressa à sua ilha para resgatar os seus discos perdidos é impossível. A música é transversal e universal. Toca a todos. Até a um anormal como eu. Todos nós temos os nossos discos, as nossas músicas. Somos viralmente interseccionados por ritmos, sequências de notas e códigos que de forma um tanto ou quanto estranha nos despertam sensações e emoções.  Talvez por isso seja muito estranho escrever sobre música. Porque não se escreve sobre música, a música é que se escreve. E isso devia chegar.

No caso específico do Nuno e do seu grupo de amigos, não consigo colocar a questão numa estrita procura por discos efectivamente perdidos, embora acredite que existam uns quantos mistérios. Até eu tenho discos do Pascoal em casa.

Porém, creio que a questão passa um pouco por revisitar os sentimentos. Do sentir a música como eles sentiam. É uma viagem emociomusical.

Olhava para o grupo de amigos do Nuno como betos. Já eu, com educação e condições sócio económicas semelhantes era igualmente beto. Mas eu e os meus amigos éramos betos transgressores.

Enquanto eles deram festas memoráveis com alta música, a que muito poucas fui, pois eram festas de betos, nós não demos festas. Não fizemos amigos para a vida e muito menos perdemos discos que justificam reencontros. Não tínhamos tempo para isso.

Fugir da polícia, ser preso, ir para as urgências do hospital, tentar fazer descarrilar comboios, pegar fogo a carros tomavam muito tempo. Não dava para organizar festas.

Que estupidez.

O que eu não perdi?

Foi o que pensei em alguns momentos do filme.

Hoje, os amigos do Nuno, são homens bem postos, directores disto e aquilo, são artistas, são agricultores de sucesso. São inteligentes, e porque não dizê-lo, bonitos. (Repare-se que quando era um beto transgressor não podia dizer isso). E acima de tudo, são cultos.

Já eu e os meus amigos somos publicitários, prostitutas, pianistas em cabarets, esteticistas, taxistas e cabeleireiras. Somos feios. Não nos damos e não temos nada em comum. Nem uma coisa tão simples e vibrante como a música.

Nasci para ser beto e arruinei o meu destino porque ouvi Doors cedo demais.

2. O meu Pai.

O meu pai era uma besta. Não por me bater, ou tratar particularmente mal. O meu pai era uma besta, como muitas bestas de outros pais, porque não me ligava nenhuma.

Verdade seja dita que se diferenciava das outras bestas por uma questão em particular: era dono de uma discoteca.

Já viram a sorte de um beto transgressor cujo o pai tem uma discoteca?

Lá em casa havia um Tecnichs SL 1200 e uma colecção interminável de discos.

A besta do meu pai, ao que tenho ideia, não tinha gosto musical. Como boa besta que era, tinha tudo.

Já viram a sorte de um beto transgressor cujo o pai tem uma discoteca e que em casa tem todos os discos do mundo?

Todos os discos do mundo não. Ele tinha todos os discos main stream.

Mesmo assim, já viram a sorte de um beto transgressor cujo o pai tem uma discoteca e que em casa tem todos os discos do mundo, menos os que o Nuno e os amigos mandavam vir da Controverso em Lisboa?

Mais velho, também fui muitas vezes à Contraverso comprar discos. Mas não era a mesma coisa. Pelo menos a julgar pela total ausência de relação quando lá ia. Já o Nuno que picava discos pelo telefone, para os encomendar, deve ter ficado no imaginário dos Contraversos.

Mais uma vez se prova que muitas vezes não é o ter à disposição, mas sim o querer ter.

De qualquer das formas, ter à disposição aquela infindável colecção de vinis era qualquer coisa de maravilhoso.

Nesta fase não conhecia nada. Era virgem até às orelhas.

Qual terá sido a sensação de ter ouvido os Sultans of Swing dos Dire Straits pela primeira vez? E o The Wall dos Pink Floyd?

E a discografia completa dos Beatles, descoberta faixa a faixa, música a música?

Os meus amigos ouviam Ana Faria e os Queijinhos frescos e eu já ouvia o Asas e Penas do Jorge Palma ou o Ar de Rock do Rui Veloso.

Qualquer nome que me falassem, sem excepção, estava na colecção de discos do meu pai. Roxy Music, Fleetwod Mac, Bananarama, Supertramp, Police, KC & The Sunshine Band foram os que mais me passaram pelas mãos, mas a lista é interminável.

O meu pai até não ouvia muita música porque era uma besta. Já eu era só uma criança inocente, com muito tempo livre e muitos discos à disposição.

Estava sempre a ouvir e a descobrir coisas novas só por mim. Sem ninguém dizer é bom, é mau, é assim assim. Tal como um virgem que quando perde a virgindade quer lá saber se é bom, ou se é mau. Desde que seja.

3. O Carlos

Já viram a sorte de um beto transgressor cujo o pai tem uma discoteca e que em casa tem todos os discos do mundo, menos os que o Nuno e os amigos mandavam vir da Controverso em Lisboa?

Seria mesmo sorte ter tantos discos à disposição?

Claro que não.

Eclético demais para se formar um critério e um verdadeiro gosto musical.

A besta do meu pai obrigava-me a trabalhar na discoteca durante o verão. E quanto a isso só posso dizer uma coisa: obrigado besta.

Perder o meu tempo a furar ondas na praia do pópulo e a tentar engatar miúdas com conversas verdadeiramente idiotas, quando podia passar o dia mergulhado em discos?

Era inacreditavelmente má a música que a maioria dos clientes compravam. Artistas dos quais nunca tinha ouvido falar sequer.

Mas eu também não andava longe da mediocridade. A ideia que tenho da altura era que ouvia Madonna e tretas desse género. Agora… agora é giro ouvir o Lucky Star, mas acreditem que na altura era verdadeiramente deprimente.

O Carlos mudou a minha vida musical naquela altura e fez de mim um homenzinho. Ele trabalhava na discoteca e percebia de música. Aliás ainda percebe. E muito.

Sempre que me via a escolher alguns cd’s dizia:

– Não vais ouvir essa merda, pois não?

E ponha-me na mão outro disco qualquer.

Uma vez calhou ser Erik Satie. É claro que não me podia esquecer deste. McCoy Tyner foi outro exemplo de um CD e artista inesquecível que me veio parar aos ouvidos por essa via. Mas o Carlos tem um grande à vontade no Jazz, por isso neste campo é quase nosso senhor. Com ele vieram os clássicos Miles Davis, John Coltrane, Chet Baker, Duke Ellington. Veio também a certeza que o Cole Porter em conjunto com o George e o Ira Gershwin devem ter escrito para aí 90% da história do jazz.

A vida já não era a mesma. Não dizia conversas idiotas durante o dia às miúdas, para ter doutas conversas sobre música à noite. E mais giro, tinha dinheiro para lhes pagar copos.

Aqui que ninguém nos ouve, apenas lê, muito piratiei eu. Bastava que o Carlos me desse uma boa dica que aquilo passava de imediato para uma cassete para estudar em casa.

Congeminamos juntos e telepaticamente uma revolução na discoteca. Só encomendar coisas fixes e obrigar os maus clientes a ouvir boa música.

Não deu certo, basicamente, porque a besta do meu pai, quando via a nota de encomenda, entrava em cena e dizia:

– Esta merda é para vender discos.

E com razão.

Aqueles que pensávamos serem maus clientes, porque tinham um péssimo gosto, eram no fundo os nossos mecenas. Aqueles que permitiam passarmos tardes a ouvir música e a falar de música. Com um shot ocasional de bagaço, à vez, ali ao lado no Aliança, que para ouvir um bom som tem que ser em etéreo.

4. O Hélder.

Paralelamente havia o meu tio Hélder, que era doido na altura, mas que agora já está bom. Como profissão partia carros, casas, dentes, pernas, costelas e comia copos de vidro a olhar fixamente para o DJ do Cheers quando passava música de merda. Era quase sempre.

A primeira vez que coloquei uma cassete no carro dele foi ejectada dois segundos depois e atirada pela janela. Era o The time of my life, do Bill Medley e da Jennifer Warnes.

– Que merda é esta?

De seguida meteu John Zorn. Que coisa demoníaca era aquela? Jesus nosso senhor.

Não entendi nada. Mas passei a respeitar o gosto musical do meu tio. Merdas daquelas no carro dele não.

Mas o facto curioso dos meus discos perdidos com o Hélder, é que eu não tenho discos perdidos com ele ou em casa dele. Os discos perdidos dele estão comigo, em minha casa.

Agora digam lá que não é uma sorte para um beto transgressor cujo o pai tem uma discoteca e que em casa tem todos os discos do mundo, menos os que o Nuno e os amigos mandavam vir da Controverso em Lisboa, e ainda por cima tem um tio que atira música de merda pela janela e com a outra mão nos dá um bom punhado de discos vinil, em ótimo estado, com pérolas como o primeiro disco dos Massive Attack, o Blue Lines de 1991, tinha eu uns 16 anos?

Pelo meio, o tal John Zorn, discos do Izumi Kobayashi, Bel Canto, David Sylvian, Nick Cave.  Mas confesso uma coisa, a maioria dos nomes serão tão independentes ou alternativos que nem os consegui reter. Há importações do Japão e bandas que nunca ouvi falar. Aliás, nenhum amigo meu conhece o Heinner Goebbels para além do meu tio, se é que ele existe mesmo. Mas o disco “Der mann im fahrstuhl” é fabuloso.

Como o meu tio era doido, desconfio que ele tinha um amigo que percebia muito de música. De vez em quando ponho a tocar uns quantos discos desconhecidos e são todos eles bons. Sem excepção.

Não foi a influência mais pedagógica porque vendo bem não há qualquer pedagogia em atirar cassetes pela janela fora, muito menos um percurso para chegar ao John Zorn deve ser feito daquela maneira. Mas a atitude, ó meu deus, a atitude rock star decadente e deliquente era música para os meus ouvidos.

O Mick Jagger queria ser como ele e a Bo Derek queria estar com ele.

Eu também queria muito a Bo Derek. Mas primeiro tinha que perceber John Zorn.

5. O Nuno.

Foi o papel do Nuno fazer-me perceber John Zorn.

Colega de casa, ele no primeiro ano de economia ou gestão, eu ainda no 12º ou 11º, não me recordo bem.

Do que me lembro é que o Nuno era um paz de alma. Não sei como ele me aturou tanto tempo. A mim, e a cambada de betinhos transgressores que metia dentro de casa a qualquer hora do dia ou da noite.

Apesar das boas influências do meu pai, do Carlos e do Hélder a verdade é que também continuava a ouvir música muito duvidosa. E o pior de tudo é que não tinha qualquer pudor em por Guns’n’Roses a tocar. O que não deve ter sofrido o Nuno.

Mas a verdade é que com a minha idade toda a gente ouvia os Guns’n’Roses e depois os Nirvana. Isso não tinha nada de mal. Éramos pirralhos e era seguro gostar do que todos gostam.

Não tinha nada de mal?

Se tivesses o gosto musical do Nuno deveria ter e muito. Enquanto eu fui a um dos últimos concertos de Nirvana na praça de touros de Cascais, o Nuno já era um Senhor. Já tinha ido ver Einstuerzende Neubauten e Young Gods.

Maravilhavam-me os relatos dos objectos que eram usados para fazer som, dos andaimes em palco, todo um aparato independentista que nada tinha a ver com o Top + que passava na RTP 1 e na minha aparelhagem.

Ele ouvia The Fall, toda aquela onda de Madchester: Happy Mondays, Joy Division, Primal Scream e gostava muito dos United Future Organization. Depois ainda vinham os Cocteau Twins, Stone Roses, os Blur, os Charlatans, e mais os Smiths, e My Bloody Valentine, Pixies. Era uma armada invencível que agora sim, iria mudar a minha vida para sempre.

Porra, como é que o Nuno, só dois anos mais velho que eu, tinha um gosto musical extraordinário com cenas tão fixes e tão cheias de onda e eu ouvia Guns’n’Roses?

Chamei uma data de amigos lá a casa e vendi todos os meus discos de merda. Incluindo o tal de Guns’n’Roses.

Dois, três anos mais tarde, quando o Nuno me comunica que o pai tinha comprado um apartamento e que ele iria sair lá de casa foi um momento triste. O Nuno era o meu ganha pão musical. Podíamos perfeitamente ter mantido uma relação, fosse ela suportada nos discos ou mesmo na nossa simples convivência. Mas eu continuava muito mais motivado em transgredir e a por em risco e minha vida e a vida dos meus amigos fazendo coisas verdadeiramente parvas.

O pai de um amigo meu, que era advogado, ameaçava-o sempre dizendo que a polícia nos andava a vigiar, a ver se ele se portava bem. Anos mais tarde, numa festa devassa, com música péssima, em casa deste meu amigo descobrimos numa gaveta do escritório um envelope e lá dentro estavam fotografias nossas e vários relatórios policiais.

Se eram verdadeiros, ou falsos, não sei. Sei que a festa acabou naquele momento. E devemos ter andado uma semana tipo meninos do coro até voltar a atirar televisões do 14º andar para a rua.

Por melhor banda sonora transgressora que fossem os Clash, não foi, nem era o suficiente para que me deixasse de sentir orfão daquele grande mentor que foi o Nuno.

 6. A Sheila.

Mesmo assim o Nuno tinha deixado pistas suficientes para me orientar sozinho. Não deu propriamente a cana, mas deixou muito peixe.

Já na faculdade, tal como qualquer bom português, não aprendi rigorosamente nada, nem fiz grande amizades musicais.

Foi aí que percebi que estas pessoas tão especiais que tinham feito parte da minha vida musical tinham também outra propriedade: eram raras.

Isto fez-me valorizar ainda mais a Sheila quando a conheci.

A Sheila simboliza para mim a música na publicidade, pois foi das pessoas mais versadas na matéria que encontrei. Quando falo dos discos perdidos da Sheila, falo de discos que o mundo perdeu. Anne Shelton, Ink Spots, Lew Stone Band, Lale Anderson, Ray Noble e tantos outros. É impressionante o legado de discos dos anos 20, 30 e 40 que me acompanham até hoje.

Se a tentasse definir diria que a Sheila é uma caralha com um gosto retro kitsch. Aliás, eu próprio não sabia que era retro kitsch até a Sheila me mostrar um punhadinho de músicas compiladas numa banda sonorosa fabulosa: The Singing Detective.

A Sheila ouvia José Cid, Tony de Matos e Vítor Espadinha sem qualquer tipo de vergonha na cara.

Há um pormenor. A Sheila era publicitária.

Um publicitário não se fecha sobre um estilo, um género, moda ou onda.

Se “Dou-te um doce” da Lena D’Água funciona melhor para o anúncio do Corneto do que aquela música muito gira dos Velvet Underground, pois que seja a Lena. Um anúncio de bacalhau prestar-se-á muito melhor a uma música do Quim Barreiros do que Pshyco Killer dos Talking Heads.

Esta é a inabalável despreconceitualização da música que só a publicidade me conseguiu trazer. São todos filhos de Deus. O Pedro Abrunhosa está ali ao lado do Freddie Mercury. É claro que quando abre boca se percebe que o Pedro está fora do seu elemento. Mas se só abrir a boca quando mandamos, está por direito próprio naquele eclético grupo que habita o meu imaginário musical.

Foi no momento em que coloquei a tocar Lionel Richie na agência e não fui gozado que percebi que tinha atingido a minha maturidade musical.

Abria-se de novo a porta para a minha verdadeira natureza eclética. Não se pode renegar ao que somos. Eu nasci no meio da colecção de discos, sem grande lógica, do meu pai e por mais que a insegurança adolescente me quisesse fazer pertencer ao grupo dos mais independentes e alternativos a pirosidade está-me no sangue.

Pior ainda quando alguém como o teu director criativo acha graça a quereres colocar uma música de jazz dos anos 20 num filme futurista. Ou que a Rose Marie do Slim Whitman fica genial num filme que retrata uma manifestação violenta.

Pela primeira vez na minha vida o meu gosto musical era uma coisa gira. E eu ganhava dinheiro com isso.

É claro que a musica digital muito me ajudou a expandir conhecimentos. Quando ouvia algo de novo, havia sempre um referência e atrás dessa referência uma outra referência. Pelos vistos há sempre alguém que “samplou” alguém.

É um movimento circular infinito. A música não começa ou acaba. Continua.

Fica apenas a enorme curiosidade sobre o que fará o meu tio Hélder quando partilhar com ele o “Love is strange” da banda sonora do Dirty Dancing no Spotify.

Abençoada era digital.

Agradecimentos

Nuno Costa Santos Santos pelo convite para escrever esta peça.

O meu pai é o Antonio Soares do Rego. O Carlos é o Carlos Pacheco. O Hélder é o Hélder Soares do Rego. O Nuno é o Nuno Alves e a Sheila é a Sheila Radburn Nunes.

 

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