O carro de rally do campeão nacional, que por sinal é açoriano.

Era bem garoto quando o meu fascínio pela publicidade começou, pela mão do patrocínio desportivo. Era absolutamente fascinado pelas decorações dos carros de rally e de fórmula 1. No fundo, creio que gostava mais dos carros do que do desporto em si. Marcaram-me os Audi, mas especialmente os Lancia com o patrocínio da Martini. E na fórmula 1 os Lótus todos pretos com o patrocínio da John Player Special. É aqui que nasce uma profunda envolvência com as marcas e todo o seu universo linguístico e simbólico. Passei a brincar aos patrocínios em vez de brincar aos carrinhos. E nunca mais parei de brincar.
Hoje atingi o ponto mais alto da minha brincadeira. Coloquei o logotipo, que a minha agência criou em parceria com a McCann-Erickson para a Região Autónoma dos Açores, no carro do Campeão Nacional de rallies, que por sinal também é açoriano. Cumpriu-se assim um desígnio menino e moço, que vem da minha pré-história e que muito me orgulha.

Originalmente postado no site da HDG Açores:

http://www.hdgazores.com/o-carro-de-rally-campeao-nacional-que-por-sinal-e-acoriano/

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O Sr.Coelho que arranjava frigoríficos e tinha um sotaque que parecia ser da Bretanha.

Esta é uma fábula porque um dos protagonistas principais da história, apesar de se apresentar sob a forma de humano, tenho a certeza absoluta que era um animal com capacidades antropomórficas. Sr.Coelho assenta-lhe bem, porque também não era uma besta. Simplesmente um despassarado.
Quando sondei o cinzento e felpudo Sr.Coelho sobre o desenvolvimento do arranjo do frigorífico, sublinhando que sentia alguma insegurança da sua parte, este foi paradigmático:
– Não Senhor. Não é insegurança, muito pelo contrário. É segurança.
– Está bem – Foi mesmo o melhor que consegui que responder.
O Sr.Coelho lá prosseguiu de uma forma que até podia não ser insegura, mas garantidamente que não era segura.
No meio da trapalhada, reconheceu perante mim e a sua coelhice, que de facto segurança também não seria:
– Sabe, a minha vida não é só arranjar frigoríficos. Uma pessoa não vive só de arranjar frigoríficos. Por exemplo, quantas vezes é que este frigorífico se avariou?
Ligeiramente atordoado, porque primeiro levei uma chapada com aquela conversa da segurança, talvez porque o Sr.Coelho a tenha dito com uma confiança que me desarmou, para logo depois me tirar o tapete debaixo dos pés, acabando por concordar implicitamente comigo quanto à sua insegurança, acabei por responder que aquela era a primeira vez que chamava um técnico, neste caso na pessoa do Sr.Coelho.
– Vê! – E abriu os seus grandes olhos verdes de coelho que come muitas cenouras.
Fiquei a olhar para ele incrédulo. Não me davam um nó destes há muito tempo. Eu que sabia todas as perguntas de cor, fiquei sem resposta e fui para a sala ler.
Lá quando o Sr.Coelho acabou o seu serviço, que de rápido não teve nada, disse no seu Coelhês, que parecia ser da Bretanha:
– São 35 euros.
Não sei se foi o facto do Sr.Coelho ter dilatado de novo os olhos, ou ter fungando, arreganhando sem querer os dois dentes da frente, mas a minha alma pintou-se de vermelho. Era o corpo a dizer que tinha chegado a minha hora. Abri uma gaveta, tirei de lá uma caixa de onde retirei os 35 euros em notas do Monopólio. Contei, passando-as, uma a uma, para as suas patinhas que eram de um tom ligeirmente mais escuro que o cinzento do seu pêlo:
– 10, 15, 35 euros. Estas notas podem lhe parecer dinheiro de brincar. Mas não. Muito pelo contrário, não existem notas mais verdadeiras do que estas.
O Sr.Coelho ficou a olhar para mim com as orelhas murchas. E eu arrepiei caminho:
– Quer dizer, no fundo eu não percebo muito disto, mas pelo o que me fora dado a constatar até aquele instante uma pessoa não vive só com notas de monopólio. Mas o Sr.Coelho, está à vontade para o fazer. Nada a apontar. Obrigado e até sempre.
Fechei a porta e fui buscar uma cerveja, a cerveja que me iria fazer constatar o seguinte:
– O frigorífico não estava arranjado.
– Toda a minha cerveja tinha sido transformada em cenouras.

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Young Hare – 1506
Albrecht Durer

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E se não nos deixarem morrer?

O meu computador morreu.
Foi uma morte assistida, atendendo a que acompanhei a par e passo a sua degradação. Desesperei com as suas hesitações, com os seus espera aí, está quase, é só mais um bocadinho. Não me lembro onde deixei isto, onde deixei aquilo. Isto sem contar com os seus contínuos ataques de narcolepsia.
Pronto, sabia que ele ia morrer mais dia menos dia. Mas nunca quis acreditar verdeiramente nisso, embora o desejasse secretamente e de modo ardente. Provavelmente consumido pela diabólica ira do mafarrico. Mesmo assim consegui manter formalmente a esperança na vida. Nunca é tarde para começar de novo, como tal, nós também podíamos começar de novo. Do zero. De fresco. Como se tivessemos acabado de nos conhecer, ainda em rasgados elogios, toques suaves e carinhosos e com todo ideal bem instalado de que aquele começar de novo podia voltar a ser o princípio de uma bela e longa amizade. Mas não cheguei a ter esta oportunidade, morreu nas minhas mãos, concedendo-me a graça última de salvar alguns textos únicos:
– Que te valham de alguma coisa!
Pensei ouvir. E aí, aí esqueci a raiva, a ira, a frustração, o tempo perdido a aturar um velho, não tinha outro nome era um velho, e chorei. Chorei como não me lembro de ter chorado por alguém. Acabava de perder o meu companheiro, pelo que chorar, mesmo que compulsivamente, se reveste de uma certa normalidade. Digo eu.
Fiz o luto, neguei ao ponto de jurar ter visto um pequeno sopro de vida, voltei a fazer luto e neguei novamente, mesmo antes da ambulância chegar.
Apesar do coma induzido havia ainda esperança num transplante. Seria uma questão de dias até que chegasse o novo orgão. Apesar da dor e do irracional arrependimento de todas as vezes que o joguei no ar, apartadando-o violentamente de mim, havia ainda uma réstia de esperança. Ficará uns dias internado enquanto o preparam para o transplante, isto sem a garantia que encontrem um dador compatível. É portanto uma esperança cinzenta como uma chiclete já sem sabor. Senti-o a querer morrer, até certo ponto também quis que morresse, arrependi-me e desejei-o de volta para o perder em definitivo. E agora já capacitado da sua morte não o deixam morrer, mas também não me dizem se irá viver. E eis como um dos únicos conceitos que tomava como garantido: a morte, fica inexoravelmente abalado.
E se não nos deixarem morrer?

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Inisiacion/Initiation

As nossas tardes eram passadas no mais perfeito caos e desprogramação. Éramos dois homens e fazíamos o que nos apetecia. Ainda hoje foi assim, sem grandes regras, comemos quando temos fome, dormimos quando nos apetece, vemos filmes se nos interessa, andamos de bicicleta, ou lemos. Principalmente, lemos. Ler é mesmo uma das nossas actividades favoritas enquanto no exercício e exército de homens juntos.

Eu o narrador, o leitor mais focado e compulsivo, o Luís. E ele, o homem forte. O meu homem forte. Chato, sempre a interromper as minhas leituras com perguntas e indagações sobre os seus livros, como que supondo que já eu os lera a todos. É verdade, já os lera. Sabia-os de cor. Porém este facto não justifica o seu comportamento e as inquietações constantes. Quando me interrompe sucessivamente e a tal ponto que chega a quebrar o ritmo de leitura, o que nos tempos antigos só um terramoto muito violento, ou a queda de um avião no quintal proporcionaria, obriga-me a pensar no quão especial é, para mim, o homem forte. O poder que lhe está instituído por natureza. O Espanto.

É neste ponto e, antes que as coisas fiquem fora de controle, que sugiro irmos cozinhar. Muito embora o plural, o colectivo, a acção conjunta pouco se aplique a este caso. Eu, Luís, cozinho e o homem forte vê, prova das minhas mãos nuas todos os ingredientes de forma sagaz, audaz, curiosa, como se fosse sempre a primeira vez. A felicidade. Partilhamos com as mãos festins formiga. Pedacinhos de parmesão, carne crua, aparas de bife, assados, grelhados, cebola crua, ovos, mostarda, salmão, tudo. Se cozinhássemos um prato com 19 ingredientes, pois então que o nosso nano festim teria 19 pratos principais. Irrepreensível, o Homem forte gostava de todo o micro menu de degustação. Quando se fartava, ao fim de um tempo considerável, pedia-me para por música e dançar. A música pouco importava. O Luís gostava mais de música pungente. Clássica ou não, mas pungente. Já o homem forte, estranhamente, gostava de ladainhas. Pouco importava, se cozinhar nos ocupava bastante tempo e ler algum tempo. Ainda sobra tempo para dançar, que era por si só um quase nada que rapidamente se transformava numa coisa ainda mais garota: jogar à bola.

Um homem(Luís), e um homem(Forte) ao pontapé na bola. Um para o outro. Roçava o mata, o pênalti, o passe em desmarcação, o centro, o toque em habilidade.

A tensão crescia.

Que fazer? Que mais aqueles dois homens iam fazer depois das leituras, dos cozinhados, das danças e do mata, pênalti, passe em desmarcação, centro, toque em habilidade?

Cama, claro que é cama. Não podia ser outra coisa. Aliás, podia. Como suprir o jantar?, uma carta com três pratos, que aconteça o que acontecer, se terminar com uma pêra, bem madura, cortada aos quadradinhos faz as delícias do Homem Forte? Como tal, hoje não seria diferente.

– Sopa do dia, ervilhas.

– Prato do dia, alcatra com arroz.

– Sobremesa de uma vida, pêra aos quadradinhos.

O jantar foi sorvido de forma voraz, como que em grande antecipação pelo último acto, a cama. Banho tomado, dentes lavados, atira-se o Homem Forte, quase em mergulho para um doçe mar de lençóis, a cheirar a Jasmim e limão. Sei que se não fizer nada de muito errado, o homem Forte e eu vamos estar juntos para sempre. Eu, Luís, aproximo-me do seu rosto e peço um beijo. Fui correspondido de imediato, com amor, paixão, e sono, muito sono.

Desliguei a luz e disse:

– Amo-te meu filho. Até amanhã.

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Armando Lopez’s
Inisiacion, Initiation , 2008
Oil Painting (original artwork),
22 x 28 X 2 inches
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Uma das não maravilhas do século XXI.

Saiu o novo iPhone, o novo Samsung, o novo LG. É a era da tecnologia, das aplicações para tudo e mais alguma coisa. Que maravilha de época. A minha ironia jamais me deixaria escolher outra para viver. Por exemplo, temos hoje aplicações que nem nós sonhávamos há 10 anos atrás. Quanto mais os nossos avós. Aplicações para lavar os dentes, para fazer fitness às gengivas, com indicações, com temporizadores, áreas de particular incisão, tudo para tornar a lavagem dos dentes, nesta maravilhosa era da tecnologia, ainda mais eficaz. Com o iPhone 6 na mão esquerda, sem fazer muita força para não dobrar, aplicação aberta, indicações compreendidas, olhamos para a mão direita e vemos umas das maiores não maravilhas do século XXI: a escova de dentes. Como estou na casa de banho, decidi que doravante denominarei a escova como piaçaba dos dentes, ou simplesmente só piaçaba. Este(a) dito(a) piaçaba, pelas suas evidentes aparências, é do ponto de vista da higiene uma das coisas mais hediondas que me consigo lembrar. Se o(a) piaçaba da sanita tem por vezes dificuldade em retirar os bocadinhos de merda das suas paredes lisas, humidas e deslizantes, imagine-se o trabalho magnífico que o(a) piaçaba não fará pelos nossos dentes? E pronto, lá pensamos que lavamos os dentes, a aplicação diz que sim, passamos a boca por água, o único acto verdadeiramente higiénico, infelizmente não asséptico, lavamos a escova passando-a igualmente por água, e colocamos a secar ao ar livre, como a roupa num dia Sol, para que possa desenvolver convenientemente todas as bactérias, fungos, micróbios, vermes, ténias e outros que tais, que voluntariamente iremos impregnar nos nossos dentes na próxima lavagem. Tão século XX.
Escusado dizer que toda esta porcalheira dá um grande jeito à indústria, que sarcasticamente trata de nos manter os dentes saudáveis. Não sendo pessoal, uma vez que todas as industrias são mercenárias, fico, ao mesmo tempo, sem esperança que seja esta mesma industria a desenvolver, por exemplo, uma enzima líquida, sanitária, que consiga corroer todos e quaisquer resíduos de alimentos nos dentes.
De uma forma ou outra trocava já o meu iPhone, e todas as suas inúteis aplicações, pagas ou não, por qualquer coisa que me evitasse ter que lavar, em pleno século XXI, os dentes com um(a) piaçaba.
(Ainda por cima é hermafrodita o raio da coisa.)

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A Margarida que há em mim.

Lá em casa, na galeria onde estão as máquinas de lavar, temos uma parede em que a tinta estalou e se soltou. A forma da ausência de tinta é exactamente a de uma barata. Castanha em argamassa. Sempre que ali passo e olho para aquele bocado de ausência de tinta que estalou e tem forma de uma barata tenho um sobressalto, é uma barata!, socorro! Mas não. É um pedaço de ausência de tinta que estalou e tem a forma de uma barata. Vezes houve em que senti qualquer coisa, um bicho claro, a esvoaçar no meu cabelo que só dali, daquela ausência, poderia ter partido. Um heliporto de baratas, pensei mesmo antes de confirmar, em grande tumulto, que não era nada. Não era nada não. Era o reflexo instigado pela ausência de um pedaço de tinta que estalou e tem a forma de uma barata. Amedrontado consultei um insectuário e confirmei que podia ser uma barata, mas também podia ser um besouro, um grilo, uma aranha, uma traça. Mas assenta melhor à história o nojo consensual que a barata consegue granjear. A única de todo o insectuário e universo capaz de resistir a um holocausto universal, mesmo que não sobrasse ninguém para confirmar este facto.

Um dia. (Acho simplesmente maravilhosa a ideia de que corre tudo bem até que um dia) Um dia, já sem sobressalto, estava de passagem e olhei para a parede com a ausência de um bocado de tinta . Que susto. Parecia mesmo uma barata.

E era. Assentava perfeitamente no perímetro descrito da ausência de tinta que estalou, e esta, no seu percalço, voou na minha direcção.

Defendi-me como pude. Como se fosse um incêndio ou praga. Os dois. Tenho a sensação de a arremessar para o chão com a mão esquerda quando esta tentava fugir para a nuca, a direito pela orelha do mesmo hemisfério. Uma vez no chão tenho quase a certeza que a barata disse, mesmo antes do meu chinelo lhe acertar em cheio:

– Não. Eu sou aquilo de que os teus sonhos são feitos. Aquilo que mais desejas.

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The Naked Lunch. William Seward Burroughs

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A mulher do capote e os Jimmy Choo vermelhos.

E à hora do costume sem usar nada por baixo vestiu o seu capote. Nos pés, também encobertos, uns Jimmy Choo vermelhos  que comprara em segunda mão no ebay. Estavam como novos e tinham sido utilizados em Sílvio Berlusconi, por uma só ocasião, no Quirinal, durante um ritual fetichista. Facto que aparentemente em nada valorizara os sapatos, pois resgatou-os num último lance de 85 euros.

Ainda tocavam as sete badaladas quando entrou pela porta de trás da sacristia em tom de grande mistério, a cor do capote quase se fundia com a cor da noite. Fechou a porta e pé ante pé atravessou a ante camera, benzeu-se quando passou Santo António e abriu a enorme porta que dava para uma sala à qual só o Padre tinha acesso.

No interior mais umas quantas mulheres vestidas com o capote. Bebiam café e comiam donuts em pé enquanto trocavam conversas sobre  o tempo. Juntou-se a elas, até porque o tempo estava chato. Havia que exorcizar como quem exorciza o marido que tem andado com um feitio impossível. Era suposto ficar feliz quando o Benfica ganha, mas agora nem isso. Não basta ganhar por dois. Agora tem que jogar bem. Homens.

E nisto, com um ligeiro cheiro a enxofre entra o Padre. Homem novo, com boa aparência. Alto, galante, falante e andante. Em vez da batina uma jaleca e em vez da bíblia uma faca de chef.

Liga o projector que aponta para um lençol branco preso às mãos de duas estátuas afastadas para o efeito.

– 3º Workshop de Sushi – Paróquia dos Aflitos.

O Padre, para além da especialidade na ressurreição de Cristo e na divisão dos pães, tinha frequentado, nos tempos livres do seminário, um curso de sushi num restaurante em Algés, daqueles que se pode comer o que quiser por 8 euros.

Substituíra convenções desenraizadas como Califórnia por Rabo de Peixe. A manga que não era endémica trocada pelo ananás e o inflacionado Atum dos Açores substituído pela cavala, chicharro caneco, escolar e encharéu. Quando se detinha muito sobre um determinado peixe dizia:

– Que Deus me perdoe. Vamos rezar duas Avé Marias só pelo pensamento que nos assombrou!

Depois ponha a tocar o vinil do Bob Dylan, o Blonde on Blonde, o único que tinha escapado ao incêndio provocado por um correlegionário bêbado que extinguiu mal o incenso. Nem uma página da bíblia o fogo consumiu, veja-se como são as coisas. Sempre com o olho cá em baixo. Sempre com um olho na gente. Que diria ele daqueles Workshop’s de Sushi?

O Padre gostava particularmente da letra de “Just like a woman”. Provavelmente mais do que a sua passagem preferida da bíblia ou do Sermão aos Peixes do Padre António Viera. “Ama como uma mulher, finge como uma mulher, forte como uma mulher, mas quando se deixa ir abaixo chora como uma menina”. Talvez por isso o seu curso fosse só para mulheres. Admirava muito as mulheres. Foi por isso que foi para Padre, para que as pudesse admirar. Uma admiração pura, espiritual, religiosa e secreta.

Ninguém podia saber. Seria um escândalo na paróquia. Daí o secretismo, as vestimentas de capote, que não só escondiam os  Jimmy Choo comprados no ebay por 85 euros, mas escondiam as esteiras para fazer o makis e os urumakis, as facas de chef, o gengibre pickle, o wasabi em pó, molho de soja e o arroz.

Com a bíblia a servir de tábua para cortar o peixe, virada ao contrário óbvio, o padre desculpava-se a si próprio pelo facto de fazer um sushi digno do reino dos céus. Isto se São Pedro não se armasse em lambão na portaria. E também porque era importante passar a palavra. A taxa de mortalidade na sua diocese era elevada. Os homens bebiam muito vinho e comiam muito bife com batatas fritas. Facto. Mal sabia ele que no fim das contas não só a taxa de mortalidade se manteria como a taxa de divórcios dispararia em flecha. Facto. Um dos homens, depois de um jogo que o Benfica ganhou mas jogou mal chutou:

– Raios, o que se passa com o mulherio? Um homem quer encontrar uma mulher boa para casar e agora só fazem essa coisa do peixe cru. Onde é que já se viu um disparate destes? E eu vou para o mar há mais 20 anos.

Em parte foi o secretismo que salvou o padre do linchamento em praça pública. E em parte foram as mulheres que o salvaram do tédio monástico a que estava condenado. Elas e o Bob Dylan.

Até que um dia. É curioso como as coisas correm sempre bem até que um dia. Até que um dia a aula terminou, saíram todas as mulheres com os seus capotes vestidos.

Ela ficou para trás. Baixa o volume da aparelhagem. Apaga a luz. Ficam só as velas.

Deixa escorregar lentamente o Capote pelas suas costas, que faz uma curva ainda mais pronuncianda quando passa pelos quadris. A gravidade faz o resto e o capote aninha-se vagarosamente aos pés dos Jimmy Choo.

O Padre ia para falar, mas ela faz sinal com o dedo indicador sobre os lábios pintados de vermelho.

Com a mão varre o altar que servia de mesa de trabalho improvisada. Começa a tocar o Just Like a Woman.

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Max Ernst – The Robing of the bride. 1940. @ Peggy Guggenheim, Veneza. 129.6 x 96.3 cm .

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